17/04/2018

Daqui a 20 anos, os adultos não vão saber apertar um atacador!

Vivemos numa geração que aprendeu o valor da criança. A dar-lhe importância, a ouvi-la e a respeitá-la! Felizes os nossos filhos!!! Mas temos de ter cuidado para não cair na tentação de as colocar num pedestal fechado com uma redoma.
Os nossos filhos são muito mais escutados do que alguma vez fomos. Passam muito mais tempo com os pais do que alguma vez passámos. O que isso traz de maravilhoso, também traz de perigoso se as coisas não forem feitas com conta, peso e medida.
Quando a minha filha passou para o 2.º ano, dei-lhe uma carta de emancipação! Destranquei-lhe a porta do carro. Ela passou a sair sozinha do carro quando eu paro à porta do colégio. Passou a tirar o cinto sozinha, pegar na mochila, dar-me um beijo à pressa, eu atiro um “Adoro-te! Boa escola!” Para o ar (os nossos filhos também ouvem muitos mais “adoro-te!” do que alguma vez ouvimos!) e lá ia ela!!! Meia trôpega ao início... A tentar gerir a coisa, mas depois, fez-se à vida.
Claro que o mais novo foi logo recambiado do carro sozinho no 1.º ano porque a irmã já o fazia. É o que acontece com os mais novos. Andam a reboque dos irmãos.
Fico enervadíssima quando paro à porta do colégio e vejo mães a saírem do carro calmamente, a abrirem a porta aos filhos, a meterem-lhes as mochilas às costas. Ainda arranjam tempo para lhes apertar o casaco (não vá o pequenino constipar-se entre a porta do carro e a porta do colégio). Não mandam a criança embora sem ter a certeza que o cabelo está penteado, sem lamberem o dedo para lhes limpar um resto de leite do canto da boca e fazerem mil recomendações. Parece que estão a mandar o filho para a guerra, em vez de o mandarem para as aulas.
Ora.... Eu não veria problema algum nestes rituais matinais se a criança tivesse 5 anos! Mas ver fazer isto a crianças com mais de 1,10m de altura e ainda por cima enquanto empatam o trânsito com mais 10 carros a quererem largar crianças de forma saudável e autónoma e seguirem para as suas vidinhas, faz-me um leve arrepio na espinha! É uma pequena camada de nervos na superfície da pele.
Daqui a 15 anos, os meninos vão para a faculdade e as mães são capazes de ir até à estação para terem a certeza que eles apanham o comboio certo e validam o bilhete!

13/04/2018

Quando és Mãe Solteira obrigam-te a ser a Super Mulher!

Quando és Mãe Solteira, a única pessoa com quem podes contar é contigo própria. Isso cria uma enorme expectativa em relação àquilo que tens de ser capaz de fazer. Essa expectativa é criada pelos teus filhos porque não têm outro remédio! Mas também por ti própria porque... Enfim! Não tens outro remédio também.
O problema é quando a expectativa gerada não é proporcional ao tamanho dos teus braços. Acreditas que tens de chegar a todo o lado, cumprir com todas as exigências e fazer manobras acrobáticas para que nada falhe.
Quando és Mãe Solteira, és tu quem tem de saber onde está cada objecto perdido em casa. És tu quem tem de saber e decidir o que vai ser o jantar. És tu quem tem de se lembrar de qualquer actividade que os teus filhos tenham. És tu quem tem de ter dinheiro para pagar as contas todas. És tu quem tem de tratar das rotinas da casa. Das rotinas do carro. Do cão. Das doenças dos filhos. Das tuas próprias doenças. (Quando não finges que não estás sequer constipada porque uma Mãe, ainda por cima solteira, não tem tempo para constipações.) Quando és Mãe Solteira, és tu quem troca lâmpadas, faz a lista do supermercado, arranja a roda do skate, compra pilhas para o comando, rega as plantas, conta histórias e manda para o banho. És tu quem se chega à frente no campo de batalha. É contigo que discutes as preocupações do trabalho, do dia, dos filhos,  da carteira e do raio que o parta. É contigo que conversas antes de ir dormir. E isto não é no sentido figurado! Quantas vezes não dou por mim a falar em voz alta comigo mesma!!!
- Porra! Não apanhei a roupa!
- O carro está na reserva há dois dias, ainda vou ficar apeada...
- Foda-se! Esqueci-me de pagar a luz!
- Que é que eu faço para o jantar?
- Este armário está a precisar de uma arrumação...
Quando és Mãe Solteira, tens a mania que és a Super Mulher! Só que a merda é que não tens outra hipótese. Mesmo quando não te apetece sê-lo. Mesmo quando estás cansada e só te apetecia que te trouxessem uma sopa ao sofá, te descalçassem os sapatos e te adormecessem com festas na cabeça. A roupa não se lava sozinha, os filhos não se alimentam sozinhos. A vida não corre sem ti! Lá fora sim, mas não dentro da tua casa.
Hoje era um daqueles dias em que me apetecia ser filha. Ou então não ser o único adulto responsável aqui dentro.

04/04/2018

Foi descoberta a profissão mais perigosa do Mundo!

Nessa profissão, o sujeito é posto em contacto com uma das mais perigosas espécies da Terra! 



Crianças! 




Todos os dias ele é exposto a vários tipos de fluidos corporais altamente contagiosos. 
 

E nem todos saem pelo nariz.




O sujeito também está em constante contacto com odores extremamente fortes e nocivos para a saúde. 


Nem sequer lhe é permitido usar protecção. 




Durante 8h do seu dia e 5 dias da sua semana, esta pessoa está permanentemente a lidar com ruídos ensurdecedores, pondo em causa a saúde do seu tímpano. 



Mas ele é extremamente corajoso pois dispensa o uso de auriculares protectores de som.



Duas vezes por dia, este herói tem de enfrentar duras batalhas, certificando-se de que essa espécie é devidamente alimentada.


A espécie é muitas vezes encorajada a fazê-lo sozinha.




E nem sempre corre como planeado!




Há momentos do seu dia em que o sujeito é submetido a uma enorme pressão, tendo de manter o silêncio durante algumas horas, vigiando cada um dos pequenos elementos.


Certificando-se que nenhum membro da matilha perturba os outros membros. E vigiando qualquer distúrbio que possa interromper o único momento de silêncio dentro do habitat natural desta espécie. 




Algumas vezes por dia, este profissional é chamado a entrar em acção! 



Devidos a distúrbios causados. Quase sempre devido à cobiça de brinquedos alheios. Ou chupetas. Ou colo. Muitas vezes também é devido a nada de especial. 





Este profissional também tem de estar extremamente bem preparado para lidar com situações de stress. 




Nomeadamente as recomendações dos progenitores desta perigosa espécie. 




Não é fácil ser Educador de Infância!!!

(Nem Auxiliar, que eu já sei que vou ser acusada de ser extremamente injusta por falar apenas enquanto educadora sendo que eu sou educadora e não auxiliar e por não falar nestas pessoas tão importantes no nosso dia-a-dia e por isso vou já dizendo que as auxiliares são extremamente importantes e que sem o seu apoio nós não éramos ninguém e que elas também têm uma das profissões mais perigosas da Terra! Sim! Sem vírgulas.)

Mas a Agência Mundial das Profissões mais Perigosas do Planeta, veio já informar que, se não tiverem cuidado, perderão a posição de liderança para os seguranças do Donald Trump.

03/04/2018

E se esbarrasses contigo num café?

Sonhei que me tinha encontrado comigo própria. A outra, a que eu encontrei, tinha 20 e poucos anos.
Fiquei ali especada a olhar para ela. Cabeleira sem cabelos brancos, queimado do sol e com aquelas ondas perfeitas da praia e da despreocupação. Cara mais rechonchuda mas sem uma única ruga. E os olhos? Os olhos não viam a cor das olheiras, vinham carregados de brilho e de sonhos. De esperança e de planos. Aquele coração? Ai aquele coração! Tão crente! Tão ingénuo. Tão inocente.

E então sentei-me com ela. Comigo! Passei os primeiros momentos a abraçar-me, a observar-me. Não sei se procurava consolo naquilo que eu ainda não era, se queria apenas dizer-lhe que ia correr tudo bem. Não como planeado, mas bem. Fiquei a ver-lhe as diferenças. Na verdade, tirando as olheiras, acho que não mudava mais nada daquilo que me tornei.

Fiquei ali a pensar o que lhe dizer. Ela olhava para mim com aquele sorriso cheio de expectativa. Queria saber como era. Como era hoje? Queria saber o que vinha. Queria saber se tudo ia correr como planeado. Eu eu sentia-lhe as questões no olhar, a curiosidade que ainda não perdi mas, tinha medo de lhe dizer a verdade.

Tinha medo de lhe explicar que, grande parte dos sonhos não se iriam realizar. Tinha medo de explicar-lhe que, a maior parte dos planos não iam sair exactamente como estava planeado. Nem tão imediatamente. Tinha medo de dizer-lhe que ia ter de ser forte. Que muita coisa estava por vir e que a maior parte delas, ela nem imaginava que iam acontecer.

Quis dizer-lhe o quanto se ia orgulhar dos filhos e quão bonitos iam ser, mas não quis estragar o deslumbre dos seus olhos quando tivesse a oportunidade de olhar para eles.

Quis dizer-lhe que os contos de fadas não eram exactamente como nos tinham contado em criança, mas não quis estragar-lhe a vontade de os procurar. Naquele coração tão cheio de ideias. Ideias malucas. Mas ideias.

Quis dizer-lhe que as pessoas não iam sempre corresponder às suas expectativas, mas não quis estragar-lhe os momentos de fraqueza que a iam ensinar a construir a força para os ultrapassar.

Quis dizer-lhe que ia chegar bem mais longe do que poderia imaginar, mas não quis estragar-lhe a surpresa da descoberta.

Quis dizer-lhe que ia passar por muitos maus bocados, muitos. Que ia ter muitas desilusões, muitas. Que ia ter vários desgostos. Oh meu Deus... Tantos... Mas não poderia nunca estragar-lhe a inocência da fé na vida e nas pessoas.

Quis dizer-lhe que todos esses desgostos iam ser águas passadas, iam transformar-se em rugas e mapas de histórias cravados na sua pele então brilhante, mas não quis deixar-lhe a ânsia de ver esses dias chegar, correndo o risco de não absorver todas as aprendizagens que deveria fazer, para então desfrutar de todos esses alívios.

Quis explicar-lhe que as coisas eram bem mais complicadas do que ela imaginava. Mas não quis deitar a perder a oportunidade de crescer com os obstáculos e de aprender com as situações.

Quis dizer-lhe que ia ter de ser forte e corajosa e que nunca poderia perder a força de querer as coisas, mesmo que um dia percebesse que nada iria ser como planeou, e que nunca poderia desistir. Que tudo iria acabar bem.

Mas eu conheço-me! Não ia ouvir nenhum daqueles conselhos. Não ia acreditar em nenhuma daquelas ideias esquisitas de não realizar sonhos, de não poder acreditar em todas as pessoas, de não vir a ter o meu próprio conto de fadas.

Por isso, não lhe disse nada! Sorri-lhe apenas! Pisquei-lhe o olho onde tentei atirar-lhe o mesmo brilho que ela tinha aos 20 e poucos anos e dei-lhe um abraço enorme. Preferi que ela acreditasse nos sonhos e que voltasse a passar por tudo o que teve de passar até aqui.

Porque a verdade é que, mesmo com tantos desgostos e desilusões, com tantos planos B postos em cima da mesa, a verdade é que cheguei até aqui. E a verdade também é que, ninguém me garante que o meu plano B não seria, à partida, o plano principal. Só que eu não sabia!

Se eu me voltasse a cruzar com ela (comigo) dizia-lhe só: Faz-te à vida miúda! Ainda te vais surpreender!












02/04/2018

15 coisas do dia-a-dia que não matam mas moem!

Pessoas que ficam horas paradas à frente das prateleiras do supermercado enquanto tu queres tirar alguma coisa. Não mata! Mas mói!

Filhos a fazerem um monte de perguntas enquanto estás concentradíssima a fazer alguma coisa. Não mata! Mas mói!

Olhar para o recibo de ordenado e ver a quantidade de euros que deverias receber, mas são automaticamente enviados para os cofres do estado, sendo que nem sequer são bem utilizados. Não mata! Mas mói!

Quando estás cheio de pressa na estrada mas, os sinais ficam todos encarnados, ou aquela velhinha fofa decidiu sair de carro nesse instante ou os carros lavadores de ruas vão à tua frente. Não mata! Mas mói!

Explicar aos teus filhos, todos os dias, que não é suposto irem no carro a implicar um com o outro, mas, mesmo assim, teres de voltar a explicar todos os outros dias. Não mata! Mas mói!

Quando guardas aquele cantinho da torrada para o fim, mas, deixas cair o cantinho ao chão e o cão foi mais rápido que tu! Não mata! Mas mói!

Pôr roupa a secar porque está sol lá fora e logo depois começa a chover. Não mata! Mas mói!

Estar seis meses a planear umas férias e a história aparecer precisamente no primeiro dia. Não mata! Mas mói!

Perceber que sobrou um dinheiro ao fim do mês e esfregar as mãos de contente porque te apetece comprar qualquer coisa para ti mas, a máquina do cafe avaria e tu não consegues viver sem ela. Não mata! Mas mói!

Estar um mês à espera da festa dos 40 anos da tua amiga e fazer imensos planos de como a noite vai ser espectacular e em como aquele kit novo que ainda não estreaste vai sair do armário mas, rebenta-te um herpes na boca de tal tamanho que nenhum membro da população presente tem vontade de se aproximar de ti sequer para te cumprimentar. Não mata! Mas mói!

Sair de casa com o cabelo acabado de secar e estar nevoeiro cerrado e humidade a 99%. Não mata! Mas mói!

Entrar no carro, pôr o cinto, ligar o motor e só depois perceber que tens um papel preso no pára-brisas. Não mata! Mas mói!

Sair da esteticista com as unhas impecáveis e partir uma delas no fecho da mala do carro. Não mata! Mas mói!

Por três medidas de água a ferver no tacho e, quando começas a deitar as medidas de arroz, não te lembrares se já deitaste duas lá para dentro. Não mata! Mas mói!

Entalar o dedo à frente de alguém de quem não podemos soltar um foda-se com todas as letras! Não mata! Mas mói!


25/03/2018

Um bom professor tem de frustrar!

Em conversa com amigas, falávamos da capacidade que os professores têm de chegar aos seus alunos todos. Ou melhor, da capacidade que deveriam ter.
A verdade é que não é fácil fazê-lo. As turmas são grandes demais e os programas são feitos para serem ensinados em 2 anos e não em 9 meses.
Mas também é verdade que é suposto um professor dar o seu melhor. Querer dar o seu melhor. É suposto que um professor faça uma auto-análise e consiga perceber o que está a correr bem e o que está a falhar. É suposto que um professor queira fazer isso porque a profissão que escolheu precisa que o faça. Porque um professor não lida com coisas, lida com pessoas. Lida com pessoas numa fase crucial do seu desenvolvimento e da sua formação. Quando um professor falha, pode comprometer para sempre a pessoa que tem à sua frente.
Se todos pensarmos nos professores que mais gostámos na nossa infância, todos nos lembramos de, pelo menos um, que dava o litro por nós. Que nos olhou nos olhos, que reparou em nós e que tudo fez para que gostássemos das suas aulas. Também é verdade que, a maior parte das vezes, gostámos desse professor porque ele foi inconvencional. Lembro-me de uma professora de Geografia que dançava nas aulas! Era doida! Falava alto! Gesticulava muito! Mas tudo no bom sentido! Ela vibrava de tal maneira com a matéria que debitava, que nos contagiava. Nunca tive menos de 95% nos testes dela. A sua forma de dar a aula era tão diferente e feliz que a matéria era imediatamente absorvida e quase não precisava de estudar. Quando o fazia, fazia com gosto! E também porque não a queria desiludir devido ao facto de gostar genuinamente dela e das suas aulas.

Quando saio da escola, costumo ir no carro a fazer um resumo do dia enquanto vou buscar os meus filhos. Fico verdadeiramente triste quando percebo que alguma criança me passou despercebida nesse dia. Ou porque não tive tempo de olhar para ela, ou porque alguma coisa me privou de lhe dar atenção a algo que para ela era importante mas eu tive outra coisa mais urgente para resolver.  Não é suposto isto acontecer todos os dias. Muito menos sempre com a mesma criança. É suposto um professor (educador) frustrar! Mas é suposto frustrar e querer compensar o erro que levou a essa frustração. Quando frustramos é porque demos conta das nossas falhas e nos preocupámos o suficiente para frustrar. E então é preciso passar por essa frustração para podermos, no dia seguinte, compensar essa falha.

Não é possível dar a mesma atenção a todos os alunos diariamente. Tal como uma mãe não consegue amar os filhos da mesma forma e na mesma quantidade todos os dias. É preciso encontrar as necessidades e ir respondendo à medida que elas vão surgindo. E se hoje dou mais atenção a um filho porque hoje é esse filho que precisa, com os alunos temos de fazer exactamente da mesma forma. Se hoje não dei atenção àquela criança porque houve outra que precisou de uma atenção mais urgente, amanhã é dia de compensar.

Não é fácil! Não é nada fácil! Mas é preciso pensar, é preciso analisar e é preciso frustrar! Para que essas frustrações dêem lugar às compensações e às reparações de falhas.

18/03/2018

Era uma vez um 18 e um Cesário Verde

Andei num colégio onde as notas eram valorizadas. Bastante valorizadas. Valorizadas demais. Adorei lá andar mas não punha lá os meus filhos, precisamente por causa disso. Valorizo muito mais o esforço e a superação, do que o resultado em si.

Eu era uma aluna de 15. Provavelmente seria considerada uma excelente aluna numa escola pública da época, mas ali não. Eu sentia-me por vezes constrangida pelas notas que tinha. Quando as notas não eram nada más.

Lembro-me de um dia, quando a professora de português vinha no corredor para nos dar aula, com os testes corrigidos debaixo do braço, todos corrermos na sua direção.

- Stôra! Quanto é que eu tive?

Ela ia elogiando os alunos à minha volta com festas na cabeça e apertos carinhosos de incentivo no braço.

- Tiveste 19! Parabéns! Tiveste 18 minha querida! Tiveste 20, não esperava menos de ti!

Lembro-me de lhe ter feito exactamente a mesma pergunta e ela me ter sacudido a mão (com umas unhas enormes e encarnadas) à frente da cara e, sem sequer me olhar ter atirado um "Tu tiveste 15..." completamente vazio de expressão ou sentimento.

A verdade é que o 15, para mim, era óptimo! Mas não deixei de me sentir humilhada no meio daquela confusão de elogios que ela fazia questão de atirar para cima de todos. Menos para cima de mim. Como se eu não fosse suficiente! Ela não tinha orgulho em mim e nem sequer se interessava.

O Exame Nacional chegou. Assim que percebi que o tema era Cesário Verde, rejubilei. Era um dos meus autores preferidos!

Deixei naquela folha de ponto o meu coração na interpretação do texto. Vibrei em cada palavra e linha que escrevia.

As notas saíram. Tive 18! A melhor nota do colégio no Exame de Português. Subitamente transformei-me na aluna preferida daquela senhora baixinha e redonda de cabelo platinado e os dentes sempre sujos de batom encarnado. Arrastou-me por um braço enquanto bradava aos céus pelos corredores do colégio que a SUA (como lhe conveio naquele momento) aluna tinha tido a melhor nota no Exame Nacional.

Eu revirava os olhos e seguia-a forçada. Deixei-a ter esse prazerzinho momentâneo enquanto o celebrava por dentro só para mim. Ambas sabíamos que aquela nota não tinha sido graças ao seu trabalho. Mas a vaidade não a deixou ser minimamente humilde ou sentir qualquer remorso dos safanões cheios de desprezo que me atirou à cara à frente de todos com os meus 15's nos testes.

Foi nesse dia que aprendi uma grande lição. Até hoje! Que não podemos esperar que os outros façam por nós o que precisamos fazer por nós próprios. Que vai sempre haver alguém a aproveitar-se dos nossos sucessos. E que as coisas, quando são esforçadas com paixão (como aquela que eu tinha por Cesário Verde) saem sempre melhor do que quando as fazemos por obrigação.

Hoje estava no banho a fazer um breve resumo da minha vida e do sítio onde cheguei. E apercebi-me da quantidade de Exames que transformei em 18's e que, desde aquele dia em que saíram as notas do Exame Nacional, nunca mais deixei nenhuma Professora Regina fazer-me sentir humilhada pelos meus resultados.











15/03/2018

E ainda não são 9:00...

Já gritei com uma alemã!
Já discuti em inglês!
(Fiquei super orgulhosa por ter encontrado as palavras certas no meio dos nervos e antes de ter tomado o pequeno-almoço)
Já andei ao ponta-pé com um cão!


Já é a terceira vez que aquele cão fisga o meu lá do fundo e mete uma abaixo para o vir atacar!
Já é a terceira vez que ando ao ponta-pé com o cão e ele me morde!
Já é a terceira vez que digo à mulher que não pode passear um cão daqueles sem trela!
Já é a terceira vez que a gaja grunhe comigo em inglês hitleriano antes das 8:00 da manhã.

Tenho de perder o hábito de passear Mr Darcy sem o telemóvel! Nunca consigo chamar a polícia!

Se o resto do dia puder decorrer sem acontecimentos de maior, agradecia. Já basta a chuva às portas da Primavera.

13/03/2018

Uma pessoa tenta! Nem sempre consegue... Mas tenta!

Tenho andado a tentar encaixar quatro vidas nas 24h que o dia tem. Não tem sido fácil... Tendo em conta que 8h são passadas como educadora e cerca de 6h são passadas a dormir, sobram-me cerca de 10h por dia para ser Mãe, tratar da casa, comer, respirar e meter-me em projectos megalómanos (que estou ansiosa por contar). Uma vez ou outra, também faço um xixi e tomo duche!
A verdade é que tenho andado de rastos... Mesmo de rastos... E ainda por cima culpada por andar de rastos. A verdade é que só tenho a agradecer tudo o que está a acontecer. A agradecer tudo o que ando a fazer. A agradecer as oportunidades que me chegam às mãos. À vida!
A prova de que, coisas boas acontecem, é que, ainda há uns meses andava a carpir um coração destratado, a achar que a minha vida estava em cacos e agora só me apetece abrir garrafas de champagne e fazer brindes.

Do pouco tempo que me sobra, tento ser uma boa mãe. Tento dar-lhes atenção, ouvi-los, olhar para eles quando falam comigo e fugir à tentação de despachar refeições improvisadas no sofá. E enerva-me que o pouco tempo que tenho para ser mãe, e que tento com todas as forças que seja de qualidade, seja muitas vezes gasto a mandá-los para o banho, a refilar por implicarem um com o outro ou a repetir 30 vezes no supermercado que "não! não vos vou comprar porcarias!".

Tenho ido ao supermercado a conta-gotas porque, nem para fazer compras de jeito tenho tido tempo. Vou a voar ao fim do dia comprar 3 ou 4 coisas que faltam e volto a voar para casa na tentativa de passar o pouco tempo de filhos sem ser a voar. (que acaba por ser sempre...)

- Meninos, vamos num instante ao supermercado!
- Podemos comprar alguma coisa para nós?
- Claro! Bananas para o teu pequeno-almoço! Leite, iogurtes para levares para a escola! Vamos comprar as coisas todas para vocês!... (termino a minha afirmação sarcástica com um revirar de olhos!)

Não vale a pena... Entre o pão e a fruta mandei-os parar de se empurrarem 4 vezes! Mandei-o parar de insultar a irmã umas 10 vezes! Disse-lhes que NÃO a 15 produtos diferentes! E a minha tentativa de ser uma boa mãe foi começando a desaparecer à medida que os meus olhos começavam a ficar cada vez mais encarnados, a minha voz começava a ficar cada vez mais cavernosa e o fumo começava a sair pelas minhas narinas.

Tinha-lhes prometido comprar gelados para a sobremesa porque não tínhamos tido tempo de ir à tarde comer um à rua. Claro que, perante todo aquele comportamento, às duas por três informei-os que já não íamos levar gelados nenhuns... Virei-lhes as costas e segui decidida para o corredor do leite! Quis o destino que me enganasse e que fosse direitinha ao corredor do vinho. (se calhar foi um acto falhado!) Ali parei! Juro que parei! Fiquei a contemplar as prateleiras recheadas de garrafas de vinho enquanto eles me seguiam e discutiam de qual seria a culpa por terem ficado sem os gelados da sobremesa. Por breves fracções de segundos pensei dar-lhes a chave do carro e dizer-lhes:

- Tomem! Vão para casa! Vou ali buscar uns queijos e passar a noite aqui mesmo! Na secção vinícola.

Mas afinal não... Viemos para casa e tentei ser uma boa mãe! Controlada e meiga até os enfiar na cama e vir dar pulos de alegria para a sala e continuar a trabalhar no computador até falecer de sono.

04/03/2018

O cenário é medonho!

São 22:00 e apercebo-me que não tenho comida para Mr Darcy. Com o cão enfiado no carro, vou direita à bomba de gasolina.
O Kikimobil está amarelo! A chuva do fim-de-semana trouxe uma espécie de lama peganhenta e amarela que deixou o meu carro num estado inacreditável de sujo.
Na telefonia começa a dar o "All by myself" e eu gozo o meu momento Bridget Jones. Meto o volume no máximo que as colunas permitem e vou a cantar aos berros.
Paro o carro à porta da bomba. Três homens a beber cerveja à porta. Olham para mim, naquele carro amarelado, com o Eric Carmen (e eu) a darmos o nosso melhor.
Saio lá de dentro com um ar amoroso de domingo à noite. Chocolate numa mão para alargar no sofá, duas latas de comida para cão na outra. À minha espera Mr Darcy a abanar a cauda de felicidade (porque já não me via há 40 segundos) e as patas da frente em cima do volante. E o meu Kikimobil pintado de lama amarela a sorrir para mim.
Dou à chave e o Eric Carmen continua aos gritos.

Qualquer semelhança com a Bridget Jones a bater no fundo do poço é pura coincidência! Só me faltava o pijama encarnado de flanela. (e o fundo do poço!)