25/03/2016

Estás a perder tudo, sabias?

Escrevo para os pais e mães que se sentam à mesa com os filhos separados por maquinetas barulhentas de jogos. E que mesmo quando essas maquinetas estão com o som desligado, fazem um barulho tremendo enquanto constroem um muro de betão armado entre pais e filhos.
Escrevo ao pai que vi hoje (e aos outros todos que já vi) sentado a almoçar com o filho. Entre garfadas, o filho jogava uma consola portátil e o pai olhava atento para a televisão do restaurante.
Escrevo para lhe dizer que está a perder tudo. Porra! Como é que não percebe!!! E não está a perder só o agora! Está a perder também o que vier a seguir. E o que vier depois! E depois! Porque quanto menos falarmos com os nossos filhos hoje, menos eles vão falar connosco amanhã. E daqui a 10 anos, não vais entender porque é que ele não te dá ouvidos, não vais entender porque é que ele não te conta com quem vai sair, o que vai fazer. Porque tu nunca te interessaste por isso antes! E por isso, o adolescente revoltado, o adolescente acomodado, o adolescente estranho que vive contigo, não te vai dar sequer o direito de quereres saber isso nessa altura...
Estás a perder tudo! Estás a perder as mudanças diárias nos traços deles, estás a perder as coisas incríveis que eles já são capazes de pensar, estás a perder aquilo que eles acham do tempo que faz, de quantos dias faltam para o Verão, do disparate que o amigo dele disse no recreio mas que ele achou tanta graça. Estás a perder os sonhos dele, os medos dele, as vontades! Estás perder tudo! Estás a perder as dúvidas. Dúvidas que ele vai procurar esclarecer noutro lado e tu nem vais saber se ele as esclareceu bem! Porque o muro está cada vez mais alto!
Larga o telefone, larga a televisão, larga as preocupações! Larga tudo quando te sentares à mesa com o teu filho! Porque senão quem te vai largar vai ser ele...
Olha-o nos olhos, ouve-o, escuta-o! Mas escuta mesmo! Questiona-o, responde-lhe, sorri-lhe porra! Descobre-lhe a cor dos olhos, o sinal que novo que tem na testa, a melena de cabelo que já está quase a bater nos olhos!!! Sente-lhe o cheiro, ouve as gargalhadas que não são iguais às que ele dava quando era mais pequeno. Não o percas, não o percas de vista, não o percas agora para não teres de o perder mais tarde. Não lhe dês o que tens, dá-lhe aquilo que és. Cresce com ele, ensina-o, aprende também! Ele tem tanto para te ensinar!!! E começa agora, começa já! Começa ontem! Antes que seja tarde demais...

7 comentários:

Anónimo disse...

Adorei!!! E é tão verdade! Cá em casa aos 7 Anos não há tecnologias. É o nosso momento, para conversar, para olhar, para partilhar...

Dario disse...

Dá valor à vida humana!

MariAna Ferro disse...

Ontem fui almoçar com o meu marido e dois filhos aos hambúrgueres no Restelo.
2 e 4 anos. Não se portam propriamente mal mas fazem barulho.
Pouco depois de nós chegou outro casal com dois filhos, mais velhos. Uns 10 e 12.
Sacaram de uma consola e de um tablet e cada um na sua e os pais falavam entre eles.
O mais novo olhava para nós porque fazíamos barulho e ria-se.
O mais velho não existia.
Quando o ouvi falar, ouvi o pai manda-lo calar. Não quis acreditar.
Os pais quiserem crianças caladas, sossegadas, controladas. Porque dá trabalho.
Os meus filhos ainda são pequenos mas pedem o telefone à mesa. Não dou. Por mais "trabalho" que isso me dê.
Vou fazer os possíveis para que nunca usem tecnologias à mesa. Pelo menos.
Gostei imenso.
Um beijinho.

Maria Ana

CARLOS MARTINS disse...

Muito bom, cada vez mais uma realidade que vemos um pouco por este mundo fora. Onde esta o jogar a bola na rua? brincar as escondidas? correr as apanhadas?

Kiki - Família de 3 e 1/2 disse...

É tão triste... :((
E os pais falarem entre si já é qualquer coisa!! Já vi uma família de 4 pessoas cada um agarrado ao seu telefone! Como conseguem estar tão perto e tão longe uns dos outros?.....
Beijinho Maria Ana! :)

Laura Urbano Gomes disse...

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Laura Urbano Gomes disse...

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