12/07/2018

Tu que preferes a magra!

Ontem, enquanto participava na Prova Oral com o Fernando Alvim, ligou um ouvinte a queixar-se que não tinha nenhuma relação há 10 anos. Que só queria ser feliz. Já agora com uma mulher magra porque não gostava de mulheres gordas.

Confesso que me contive para não lhe responder em directo. Não sabia muito bem se podia interromper a conversa. Mas desde ontem que fiquei a pensar nisso. Aproveito para responder, não só a ele, mas a todos os homens que preferem as magras.

Senti-me ofendida! Senti-me ofendida enquanto Mulher. Senti-me ofendida em nome de todas as Mulheres. Não só pelas mulheres gordas, mas pelas Mulheres magras também.

Tento explicar muitas vezes que, depois de um caminho percorrido, percebi que o meu estado civil não me define. Deixei de ter vergonha de dizer que era divorciada quando aprendi a dar-me valor. Quando finalmente descobri que aquilo que eu posso dar a quem está ao meu lado nada tem a ver com o facto de ser divorciada, casada ou viúva. Percebi que sou muito mais que Mãe, muito mais que Educadora de Infância, muito mais que Blogger, ou filha ou contribuinte. Na verdade somos um todo.  Mas não somos mais pela nossa profissão, ocupação ou estado civil. Da mesma forma, o tamanho das calças que vestimos também não define aquilo que somos. Ai não define mesmo!!!

A ti que preferes a magra, só posso concluir que o que queres mesmo nada tem a ver com o que a pessoa que poderia estar ao teu lado te possa dar. Aliás, nem tu tens nada para oferecer. Porque andas à procura de algo cujo conteúdo te é indiferente. Só interessa mesmo o pacote. (Em todos os sentidos!)

Tu que preferes a magra nada sabes sobre o que significa gostar de uma pessoa por aquilo que ela é. Pelo seu carácter, pelo seu sentido de humor, pelas suas convicções, pela sua força ou pela sua forma de viver.

Tu que preferes a magra não mereces sequer a gorda. Porque ao preferir a magra em vez da bem-disposta, ao preferires a magra em vez da generosa, ao preferires a magra em vez da forte, não preferes mulher nenhuma. Não mereces mulher nenhuma. Independentemente dela ser magra e bem-disposta ou magra e generosa.

Neste Mundo em que vivemos, talvez devesses até preferir a gorda. Porque a magra nunca teve de se esforçar para ultrapassar preconceitos. A magra nunca teve de se fazer de forte para vestir um fato-de-banho. A magra nunca teve de se sentir culpada diante de um bolo de chocolate.. A magra nunca teve de refugiar-se no seu sentido de humor para fazer-se bonita num Mundo que prefere magras.

Tu que preferes a magra não percebes nada! Não percebes que, muito provavelmente, escondida dentro das curvas bem delineadas e generosas de um corpo, está uma mulher que vai preocupar-se muito mais contigo e cuidar muito melhor de ti porque sabe que, num Mundo de homens de merda como tu, não há muitos que olhem para si. E por isso vai fazer-te feliz como nenhuma magra faria só por ter medo de te perder.

Tu que preferes a magra, não percebes absolutamente nada de Mulheres.

É por tantos ‘tus que existem neste Mundo que a gorda vai continuar a sentir-se gorda em vez de sentir-se bonita, generosa ou forte ou feliz.

Eu já fui a gorda. E mesmo que hoje seja magra, vou continuar a afastar de mim os homens como tu. Que preferem o rabo ao carácter. As maminhas ao sentido de humor. As pernas à generosidade.

Como disse alguém que interveio ontem no programa, tu que preferes a magra, podes ir ao talho escolher o teu pedaço de carne e continuar sozinho à espera que a magra apareça.


07/07/2018

Em que é que ficamos?

Há quem diga que não percebemos nada, no final das contas, eu até acho que percebemos tudo.

Tive um dia de praia espectacular. Com amigos. Acordámos bem cedo, o tempo estava uma merda, mesmo assim não desistimos. E eu estive quase... Pegámos nas crianças e nas sanduíches e fizemo-nos à estrada. Valeu tanto a pena não desistir!

A praia acabou numa mesa com caracóis, cervejas, bocas lambuzadas de gelado, gargalhadas e conversas boas. Mas também acabou com um telefonema a dar uma notícia triste da morte repentina de alguém.

Fiquei mal-disposta... Sempre que recebemos notícias destas ficamos assim... Mal-dispostos. Com o duro embate com a realidade. A realidade que tentamos não ver quando acordamos todos os dias. A realidade de que num minuto estamos aqui e no próximo não sabemos.

Agarrei-me aos meus filhos! Pensei nos meus pais. Olhei para os meus filhos a pensar se, se partisse naquele segundo, se teria deixado alguma coisa por lhes fazer. Na verdade, quando morremos, deixamos sempre tudo por fazer. Mas também é verdade que, se pensarmos bem, não deixamos absolutamente nada! Quando alguém morre, temos tendência a enaltecer essa pessoa. Acho que, se morresse, os meus filhos iam lembrar-se apenas das coisas boas que fazíamos e não do ralhete que lhes dei no outro dia só porque estava cansada e me deixou com a sensação de ter sido injusta no minuto seguinte.

Estes momentos dão-nos vontade de viver como se não fossemos acordar amanhã. De dizer a todas as pessoas importantes que as adoramos. De fazer algum pedido de desculpa que tenha ficado pendente. Temos até o desplante de pensar naquela viagem que queríamos tanto ter feito e ainda não houve oportunidade. Ou combinamos que vamos passar a ir contemplar o mar todos os dias.

A verdade é que é impossível viver como se fossemos morrer amanhã. Primeiro porque seria bastante cansativo viver com urgência em deixar tudo bem feito. Depois porque, aquelas coisas que consideramos especiais e temos vontade de as fazer quando nos cheira a morte, deixariam de ser especiais.

Se fosse todos os dias à Indía, deixava de ter vontade de a conhecer. Se comesse todos os dias as minhas comidas preferidas, deixava de conseguir sequer olhar para elas, quanto mais ter vontade de as comer. Se ligar todos os dias aos meus pais a dizer que os adoro, aquelas palavras que quero impactantes na hora em que são ditas, passariam a ser banais.

As coisas especiais são especiais precisamente porque não temos tempo ou oportunidade de as fazer constantemente!

Se calhar estes baques de morte fazem-nos bem de vez em quando, embora eu ache que ninguém devesse morrer! (Só os maus! Esses não fazem cá falta nenhuma!) Faz-nos bem, de vez em quando, lembrarmo-nos que somos finitos. E frágeis. Deve ser por isso que esses momentos nos fazem pensar em coisas importantes! Porque, felizmente, não acontecem todos os dias. E de vez em quando é bom pensar nas coisas importantes que temos para fazer e dizer.

Mas também faz parte da vida acordar, comer, trabalhar, executar tarefas quotidianas, levar os filhos à escola, esquecer de comprar leite, comer os mesmos bifes de frango de sempre, discutir com a mãe ou mandar o senhor do carro da frente à merda. Faz parte da vida. Faz-nos ser imperfeitos. Na verdade faz-nos vivos! E são essas perfeitas imperfeições do dia-a-dia que tornam algumas coisas tão especiais.

Por isso, afinal de contas, acho mesmo que não devemos viver como se amanhã fosse o último dia. Acho mesmo que devemos só viver. Com o bom e o mau que a vida nos dá. Com o melhor ou o pior que conseguimos fazer dela. Sem nos esquecermos de, de vez em quando, fazermos coisas especiais. De preferência sem termos de levar com um baque de morte.  Isso seria o ideal! Um dia havemos de ir todos não é?



28/06/2018

Um problema que é mais comum do que se imagina!




Felizmente, enquanto Mãe, nunca passei por isto. Os meus filhos sempre foram muito certos na hora de fazer cocó.





Mas enquanto Educadora, sempre tive crianças que precisavam de ajuda. Este ano, ainda mais, por serem bem mais pequeninos.

Escuto com atenção as preocupações das Mães, em alguns casos as preocupações são bem grandes. Tento ajudá-las na medida do possível. Mas nem sempre tenho os conhecimentos suficientes para o fazer.

A prisão de ventre nem sempre é fisiológica. Muitas vezes torna-se um ciclo vicioso1. Como um novelo que se forma dentro das suas cabeças e que os bloqueia.

A dor é um dos motivos! Há várias causas que levam à prisão de ventre. Questões emocionais, stress, o facto de estarem fora do seu ambiente, as mudanças de dieta...

Isso faz com que a criança associe a dor ao acto de fazer cocó e por isso fica com medo de ir à casa-de-banho e tenta prender. Ao prender, faz com que o cocó fique bastante mais duro tornando a ida à retrete bastante dolorosa.

E o ciclo vai girando! Dor, medo, retenção, dor!

A criança fica ansiosa porque não consegue e os pais ficam ansiosos porque não sabem, muitas vezes, como ajudar.

Mas há formas de dar a volta à questão!

Através da alimentação com um maior consumo de água e de fibras. Criando rotinas, como ir com a criança à casa-de-banho cerca de 20 minutos após as refeições. Ajudar a criança a sentar-se confortavelmente na retrete, com os pés bem assentes e com a ajuda de um banco para as pernas ficarem na posição ideal (para lhe dar segurança) e confortando a criança de forma positiva pode ajudar2.

Quando aparece a prisão de ventre, pode acontecer ver a fralda ou as cuecas da criança sujas devido a fugas involuntárias. É extremamente importante não ralhar com a criança quando isso acontece para não aumentar a ansiedade dela.

Quando tudo isto não resolve, é preciso recorrer a produtos que ajudem a amolecer o cocó da criança facilitando a ida à casa-de-banho. Como por exemplo o DULCOSOFT® líquido (solução oral 250ml) que pode ser tomado por crianças a partir dos 2 anos de idade.
E sabem qual é a grande vantagem do DULCOSOFT®? É o seu sabor neutro. Pode ser misturado num sumo, no leite, na sopa ou em água e a criança não sente. E também é adequado para diabéticos e celíacos pois a sua composição não tem glúten nem açúcar.
Existe ainda a opção DULCOSOFT® em saquetas (pó para solução oral 10gr, 20 saquetas) que pode ser tomado por crianças a partir dos 8 anos de idade.

Podem saber mais sobre o DULCOSOFT® aqui!

DULCOSOFT® Pó para Solução Oral e DULCOSOFT® Solução Oral são dispositivos médicos para amolecer as fezes duras e secas e facilitar a evacuação. A administração a grávidas e crianças com menos de 8 anos deve ser preferencialmente supervisionada por um profissional de saúde. DULCOSOFT® não deve ser tomado durante mais de 28 dias. Não tome DULCOSOFT® no caso de alergia ao macrogol 4000 ou a qualquer outro ingrediente, se tiver alguma doença intestinal inflamatória grave ou megacólon tóxico, perfuração digestiva ou risco de perfuração digestiva, íleus, suspeita de obstrução intestinal, estenose sintomática ou síndromes abdominais dolorosas de causa indeterminada. Leia com atenção a rotulagem e instruções de utilização. (5.0) [SAPT.DULC8.18.05.0329b].


1 Nadeem A Afzal, et al. Constipation in children. Ital J Pediatr. 2011; 37: 28. 
2 Nurko S., et al, Evaluation and Treatment of Constipation in Children and Adolescents. Am Fam Physician. 2014 Jul 15;90(2):82-90.

18/06/2018

Quanto pior mãe sou, mais contente fico!

Avisei claramente antes de entrar no supermercado!

- Vamos ao supermercado! Estão desde já informados que vou comprar coisas que preciso. Escusam de pedir o que quer que seja.

Mas isto foi dentro do carro. Toda a gente sabe que os avisos são guardados naquela caixinha sem fundo, lá naquela parte do cérebro, mal passamos a porta do supermercado.

Cromos para a caderneta, um cachecol de Portugal, uma bola de futebol, iogurtes com smarties, bolachas com pepitas de chocolate... Perdi o fio à meada... Não só pediu coisas (ele, claro! Ela já sabe que nem vale a pena) como pediu coisas de extrema importância para a sua sobrevivência!

- Vais continuar a pedir? Ou ainda não percebeste que vais levar um não a cada pedido que fizeres?
- A mãe nunca nos compra nada! NUNCA!
- Tens toda a razão! Tens uma mãe horrosa! Não há problema nenhum porque vamos já tratar de te arranjar uma mãe muito melhor! Olha! Aquela senhora tem um ar simpático! Vai lá pedir-lhe! Tenho a certeza que te compra tudo o que precisas.
- Mãe...
- Estou a falar a sério! Não mereces uma mãe como eu! Não vais lá tu, vou lá eu! Olhe!!! Desculpe!!! A senhora quer ser mãe do meu filho?

Amuou... Não foi a senhora! Foi ele mesmo. Mas a verdade é que não pediu mais nada até acabarmos as compras.

Chegámos a casa! Calor infernal. (Mas em bom! Não me queixo! Venha o calor! Onde estava ele?) Fomos passear o Darcy. O jantar já estava previsto e eu até já lhes tinha dito que iam para o banho mal chegássemos a casa. De repente mudei de ideias.

- Mãe, pode ser a Gigi a tomar banho primeiro?
- Não! Vão vestir os fatos-de-banho!
- Hã?
- Rápido! Vão vestir os fatos-de-banho!

Fui a voar para a cozinha! Voltei a guardar os bifes de frango no frigorífico! Ovos mexidos, bacon, pão! Uns sumos, uma garrafa de água e um café dentro de um frasco de geleia. Enfiei o fato-de-banho e arranquei-os de casa.




Eram 20:00 quando chegámos à praia. A maior parte das pessoas estavam de saída. Dois casais, uns jogadores de vólei, as palmeiras, os barcos e nós! Tão bom!

Adoro estes programas organizados em cima do joelho! Falava eu em aceitação ontem... Sim! Aceitar o fim de dia maravilhoso que nos é oferecido e arrancar para a praia com uma sanduíche debaixo do braço. Mesmo em dia de aulas. Se morrer amanhã, estas memórias já ninguém lhes tira.

Jogaram à bola, comeram com as mãos, deram mergulhos até as luzes da vila se acenderem. Saímos já de noite e só porque havia aulas no dia seguinte.

Criar-lhes memórias. É tudo o que mais me interessa! Mesmo que, daqui a muitos anos eles se lembrem que a mãe não lhes comprava tudo o que pediam, pelo menos também se vão lembrar que a mãe os levava a jantar na praia. Em dias de aulas. E a dar mergulhos quando as luzes da Vila já estavam acesas.








Aceitar não é desistir

Tomei o pequeno-almoço com uma amiga. Pusemos dois meses de conversa em dia. Eu tenho sido uma péssima amiga ultimamente... O Livro consumiu todo o meu tempo e energia nos últimos meses! Agora estou a tentar compensar as pessoas pela minha ausência. A física e a emocional.

Falámos das nossas vidas e contámos as últimas novidades. A dada altura ela fazia mil planos para o futuro. Desejou-me mil coisas boas para os próximos tempos e perguntou-me quais eram os meus planos.

Fiquei em silêncio. Primeiro a olhar para ela, depois a olhar para o céu em busca de ideias e pensamentos. De desejos.

- Olha... Não penso nisso! Estou finalmente numa fase de aceitação.
- Como assim?

A verdade é que não sei muito bem como explicar! O último ano da minha vida foi uma montanha russa. Em todas as vertentes que a vida nos oferece! Estive em cima e em baixo. Subi tão depressa como desci. Não tive muito tempo sequer para pensar nas coisas.

Agora que as coisas acalmaram finalmente, percebi que estou numa altura de aceitação. Aceitar aquilo que a vida me oferece. E isso não é necessariamente desistir de nada! É não fazer planos para os próximos tempos. É aproveitar cada momento no instante em que ele acontece. É absorver as coisas à medida que vão surgindo. Dando mais tempo para as ver chegar, para as agradecer, para as viver.

Planos? Sim! Tenho vários. Mas não olho para o fim da estrada à procura deles. Apenas sei que um dia vão chegar. E vou tranquilamente aproveitar o caminho. Aproveitar as pessoas que estão ao meu lado. Aproveitar o meu trabalho. Aproveitar as coisas que vão surgindo. Aceitar aquilo que o Universo me oferece de braços abertos sem esperar mais do que aquilo que me é confiado.

Quando aceitamos aquilo que nos é oferecido sem esperarmos não há desilusões. Há apenas gratidão. Não há ansiedade para ver quando vem mais ou porque veio menos. Há apenas tempo para abrir as mãos, agarrar e viver.

Aceitar era algo que já não fazia há muito tempo! E era também algo que precisava voltar a fazer.

Viver com ansiedade para ver, com angústia de não receber ou com a desilusão de não ter na medida que achamos que devíamos é muito desgastante.

Por isso a nova palavra de ordem é aceitar! E depois? Depois logo se vê o que a Vida traz!

17/06/2018

Porque é que nunca me explicaram assim?

Ontem estive numa formação sobre os Touchpoints do Dr Brazelton. (Aquele super mega guru da pediatria mundial)

Basicamente, e muito resumidamente, estive a tentar perceber melhor como funciona a cabeça de um bebé e o seu desenvolvimento.

A dada altura falou-se das cólicas. Há milhões de teorias sobre a fase das cólicas nos recém-nascidos. Há milhões de teorias que tentam explicar a razão de existirem. Sejam elas quais forem, há tantos outros milhões de mães a sofrer com as mesmas. Seja porque o bebé berra uma noite seguida, seja porque o bebé chega ali às 18:00 e, sem ninguém entender porquê, começa aos berros durante horas seguidas. As mães sofrem com o sofrimento deles, mas também sofrem de cansaço e de desespero.

Quem estava a dar a formação era a Prof. Ana Teresa Brito. Minha professora e orientadora de estágio na faculdade. (Há muitos anos... Mas não interessa agora contá-los!) Além de ser das pessoas mais humanas e generosas que conheço, também é das pessoas que mais sabe sobre a 1ª Infância neste país. A sua explicação para as cólicas foi a explicação mais simples que já ouvi na vida! Talvez a que faça mais sentido! E, se me tivessem dado esta explicação quando os meus filhos tiveram cólicas, talvez eu tivesse tido muito mais empatia com a dor deles. E essa empatia teria gerado muito mais compreensão e menos cansaço em mim, que desesperei a cuidar deles!

Um bebé passou 9 meses dentro da barriga da mãe. Passou 9 meses a uma temperatura mais ou menos estável, em meio aquático, a ser alimentado constantemente pelo cordão umbilical, protegido da luz, do ruído, do frio, do calor, de todos os estímulos existentes neste Mundo.

De repente o bebé sai da barriga da mãe! Puf! Está fora do meio aquático. Tem de habituar o seu corpo e a sua pele ao ar. Tem de gerir as diferenças de temperatura, a fome, o sono, o colo da avó, dos irmãos, dos pais, das vizinhas. Tem de gerir o barulho das vozes de todas as outras pessoas (e toda a gente esganiça a voz para falar com eles, coitados!). O barulho da televisão, do trânsito. A luz do dia e o escuro da noite. Tem de gerir o seu corpo a funcionar de forma diferente. Porque agora respira, engole, faz cocó e xixi. O bebé tem de gerir todo o que lhe é apresentado nesta nova vida e tudo o que lhe acontece por dentro e por fora!

Já pensaram no stress que causa a cada bebé? A pressão pela qual o bebé passa?

Imaginem atirar-nos para dentro de uma empresa. Primeiro dia de trabalho. Ter 100 pessoas que querem vir cumprimentar o novo colega, a despejarem os seus nomes para cima de nós (que não conseguimos decorar nem um) a despejarem toda a informação de como funciona cada departamento e onde podemos encontrar tudo o que precisamos. Agora imaginem que tudo isto acontecia numa cidade nova, numa língua que nem sequer é a nossa! E ao fim do dia nem sequer sabíamos bem qual o caminho para voltar para casa.

Já pensaram na tremenda dor de barriga que sentiríamos com a ansiedade? E a tremenda dor de cabeça que iríamos ter no final do dia! Mais o cansaço do corpo e da cabeça por toda a informação que tivemos de reter ao mesmo tempo!

Se nós adultos íamos querer um analgésico, com um copo de vinho e um sofá em silêncio depois de 8h disto! Imaginem os bebés aos fim de 3 semanas. Após aterrarem na nova família, na nova vida, no novo Mundo!

Eu juro que, depois de ouvir esta explicação, me apeteceu ir abraçar os meus filhos e pedir-lhes desculpa por todas as vezes que desesperei com o choro deles! E pelas vezes que me apeteceu atirá-los pela janela porque já não conseguia ouvir os berros! Porque é que não me deram esta perspectiva há 10 anos?

Bolas!!!










03/06/2018

E agora? O que é que eu faço?

Tens as respostas dadas vez mais empertigadas. Já começas a revirar os olhos de cada vez que te peço alguma coisa que não te apetece fazer. E lá vai ela! A bufar pelo caminho e atirar as mãos pesadas pelo ar. Basta-me dizer o teu nome para voltares à postura de menina bem educada, mas sei que fervilhas por dentro.
Achas sempre que estou a ser injusta contigo em relação ao teu irmão. Nem imaginas que é exactamente ao contrário e que passo a vida a fazer orelhas moucas às respostas que desabafas em voz baixa. Não porque não queira saber, mas precisamente por saber que fazem parte e não quero entrar em confronto constantemente. Tenho presente em mim uma adolescência ainda fresca. Sei bem que tens um monte de hormonas a comandar o teu sistema nervoso e todas as mudanças que estão a decorrer aí dentro. E aí fora! Ainda tenho bem presente o que estás a sentir.

Ainda recuas quando te lanço o meu olhar número 37. "Desculpe mãe!" Por isso sei que me respeitas e sabes bem quais são os limites (apesar da ousadia em tentar ultrapassá-los). Já percebi tudo! As birras que não fizeste com 2 anos, guardaste-as para agora, não foi?

Tens o desplante de afirmar assertivamente factos que aconteceram antes sequer de nasceres, mesmo depois de eu te dizer que é exactamente ao contrário. Isto está a ficar bonito!

Safa-te a tua doçura quando olhas para mim e a tua generosidade ao cuidar do teu irmão! O respeito que tens pelo Mundo e pelas pessoas.

Sempre foste teimosa e persistente.

Eu estou aqui. A observar. A aprender. A viver a tua adolescência de filha ao mesmo tempo que entro na minha adolescência de mãe. As mudanças não estão apenas a acontecer contigo. Estão também a acontecer comigo. Eu também estou a aprender a lidar com a tua autonomia. Com a tua autonomia intelectual, a tua autonomia emocional. A tua autonomia em geral! Quando achas que já sabes exactamente o que precisas e já tentas fazer tudo sozinha. Calma miúda! Calma contigo.

E calma comigo também. Não andes depressa demais porque eu estou a correr atrás de ti, a aprender a lidar com esta nova menina grande que está a entrar em casa aos poucos mas cada vez mais depressa. Depois perco o fôlego! E não quero ser injusta e ter de dar razão às tuas reivindicações.

Já sei que isto tende a piorar! E eu espero continuar a sentir empatia com as tuas hormonas, espero continuar a ter fôlego para correr atrás de ti. Espero que o meu olhar 37 continue a funcionar.

27/05/2018

A miúda está a abrir as asas!



Há meses que sabemos que isto vai acontecer. Mas foi sendo adiado. Mais por mim do que por ela.
Há semanas que ela me pede para fazer a mala e eu vou atirando com o assunto para o canto da sala na esperança que ele possa ser arquivado.

Não foi! Hoje fizemos a mala. E ela estava tão feliz!

Escolhemos juntas as roupas. Separei tudo em sacos de plástico, divididos por dia. Mostrei-lhe onde estavam os produtos de higiene e revimos mil vezes como é que ela tem de fazer a bomba da asma e quando. Ela sabe de cor. Eu sei que ela sabe. Mas sou eu quem precisa que ela reveja a matéria dada. Com confirmação em prova oral.

Esta miúda vai fazer 10 anos dentro de pouco tempo. Esta miúda está a ir de viagem, pela primeira vez da vida dela, sem a mãe e sem o pai. E vai estar sem falar com nenhum dos dois durante alguns dias. Eu sei que ela se vai divertir. Eu sei que ela não vai precisar de mim para nada. Eu sei que os professores que a acompanham vão dar-lhe tudo o que precisa. Desde as gargalhadas, ao mimo, aos arrebites que forem necessários. Eu sei que ela nunca mais se vai esquecer de dormir em camarata com as amigas e de comer no chão e de rir até cair e de ficar com os pés a doer de tanto andar. Eu sei! Tenho a matéria bem revista e bem estudada.

Estou só a mentalizar-me para o facto de ter a minha primeira bebé a sair do ninho. A ganhar asas. Dentro de pouco tempo vão começar as saídas à noite e eu vou desejar com muita força voltar a este tempo em que eu só tinha de me preocupar com a viagem de estudo que ela fez com os professores pela primeira vez. Enquanto esse tempo não chega, deixem-me fazer o desmame desta filha. Deixem-me enfiar na cabeça que ela não é mais minha. Que só foi minha enquanto precisava que lhe dessem banho ou que a vestissem ou enquanto não conseguia tomar decisões e pensar por ela.

Quanto mais a oiço mais tenho a certeza que a base do trabalho está feita. Que os alicerces estão bem presos ao chão e que, a partir daqui, é ela quem tem de colocar os próprios tijolos. Pode precisar ainda de algum apoio a colocar o cimento. Mas daquilo que vejo, está a safar-se lindamente!

Que assim continue! Responsável, generosa, divertida, feliz!

Cá estarei à espera dela! Para a abraçar, para ouvir as suas aventuras todas e para lhe lavar a roupa suja que vier na mala.

23/05/2018

Conta-me como foi!

Eu bem me queixo de vez em quando! Mas a verdade é que me queixo de barriga cheia. Bem cheia!



Estávamos em Novembro. Eu estava a passar uma das fases mais difíceis da minha vida. Com o fim (muito complicado) de uma relação e uma adaptação a uma sala de bebés de um ano ao mesmo tempo. Recebi uma mensagem da Isabel da Zero a Oito (minha querida e adorada editora! É incrível como as pessoas se podem tornar amigas com tanta facilidade! It was meant to be!) Nunca nos tínhamos visto ou falado.

- Olá! Queres escrever um livro?

Achei que ela estava louca! Eu? Como? Quem? Quando? Mas porquê???

Nem ela sabia bem... Só sabia que queria! E eu também não sabia nada! Mas soube imediatamente que podia confiar nela.

Foi logo na primeira reunião que tivemos que o tema ficou decidido! Divórcio. Só faltava saber que forma lhe dar. E escrever! Mas essa parte tocava-me a mim.

A verdade é que me senti uma fraude! Como é que eu podia dizer às pessoas como superar o fim de uma relação, se eu própria estava na merda? Mais... Eu sabia que não queria um livro lamechas. Nem pesado! Como é que eu ia ter disposição para escrever um livro positivo e divertido se a minha vontade, na altura, era enfiar-me debaixo dos lençóis e chorar até morrer?

Acabei por perceber que o caminho era aquele! Eu já tinha passado por um divórcio! Eu sabia qual era o caminho! Só tinha de o por mais uma vez em prática. E passá-lo também para o papel.


A Isabel não fazia ideia que eu estava a ressacar uma relação. E também não desconfiou que chegou à minha vida em forma de anjo da guarda! A escrita do livro obrigou-me a apressar o processo de recuperação. Obrigou-me a rever tudo o que eu sabia que tinha de fazer mas não tinha força nem vontade de começar. E assim foi. Os textos começaram a ganhar forma. O processo foi decorrendo.

Em 6 meses revi todo um processo de divórcio, revivi 5 anos de vida. Foi terapêutico, foi catártico.

No dia em que acabei o livro, quis lê-lo para ver como estava. Comecei às 18:00 e acabei às 2:00 da manhã. Fechei o computador, sentada na mesa da casa de jantar e chorei compulsivamente! De alegria, de dor, de emoção, de angústia, de alívio... Estava toda baralhada! Mas senti-me tão bem!

A Isabel foi, nos últimos meses da minha vida, a minha amiga, chefe, conselheira, irmã, mãe, sombra! Acho que falei mais com ela do que com a minha própria mãe ou amigas!

Depois veio a parte divertida! A parte criativa.

Um dia, ainda antes de imaginar que iria escrever um livro, tropecei na menina da saia. Não fazia ideia quem a tinha criado! Mas apaixonei-me à primeira vista por ela!

Assim que começámos a falar na capa do livro, eu sabia que era com a The Red Wolf que queria trabalhar. Foi tão fácil! Andei a ver milhões de ilustradores. Gostei de alguns. Mas nenhum me fez sentir o mesmo que eu sentia quando via as ilustrações da The Red Wolf. ( Um Obrigada à Homy Blog por me ter apresentado esta página!)

Até que falei com o Filipe! Expliquei-lhe que adorava a menina da saia. Que imaginava as pétalas da saia serem as minha palavras a voarem em direcção ao Mundo e às pessoas. Mas queria uma menina mais alegre para o meu livro. E o Filipe mostrou no primeiro telefonema que tinha mesmo de ser com ele. Percebi que estávamos mesmo em sintonia e tive a certeza disso quando mandou o primeiro draft.
(Fiquei ainda mais feliz quando percebi que eram do Porto! Exactamente como eu.)
Tal como com a Isabel, eles também estavam meant to be! Ao longo do percurso, o Filipe também se tornou um amigo e também fui percebendo que o seu talento era proporcional à sua grandeza enquanto pessoa.

Depois o Filipe precisava de uma fotografia para fazer a ilustração. E como este livro estava a ser feito de pessoas boas e de "amigos", também não podia fazer as fotografias com outra pessoa que não fosse o Pau Storch! Que também já era aquele que tinha mesmo de ser ainda antes de eu saber que ia escrever um livro. Só o Pau sabe a dificuldade que tenho diante de uma câmara. E só ele é capaz de me por à vontade! (um bocadinho à vontade, vá...) Só ele é capaz de captar imagens onde não se nota a minha tensão e o meu pânico. E só com ele me sinto à vontade para levar uma garrafa de vinho para a sessão. (E para poder dizer palavrões para aliviar.)





Tenho muita sorte! Este livro está cheio de mãos! E não são umas mãos quaisquer. Todas as pessoas que lhe tocaram, foram aquelas que eu queria, aquelas que não podiam deixar de ser, aquelas que trabalham não só com o talento que têm, mas também com o coração atirado para cima daquilo que fazem. E eu não sei trabalhar de outra forma! Por isso só posso sentir-me uma sortuda! E, como dizia na primeira linha, de vez em quando queixo-me! Mas queixo-me de barriga tão cheia!!!


Estou doida para que ele chegue às vossas mãos! E sei que isso só vai acontecer porque  houve muitas pessoas aqui metidas!




Por isso, quero agradecer imensamente à Isabel (e ao Pedro, à Madalena, à Rita e à Mafalda), ao Filipe, ao Pau (e ao Francisco, à Sara e à Raquel). A todas as pessoas que estiveram na produção e que eu nem as vi.

À minha família, aos meus filhos e às minhas amigas que tanto me aturaram! A vocês que tiveram uma reacção tão boa e o receberam antes sequer de o receber. À vida em geral que às vezes nos pregas partidas, mas logo a seguir nos devolve coisas boas! Tão boas!





Claro que não podia acabar sem vos pedir que vão aos eventos do Facebook dizer se vão ou não estar presentes nos lançamentos. Gostava mesmo muito que pudessem estar!

Para quem estiver pertinho de Cascais, pode ir aqui!

Para quem estiver pertinho do Porto, pode ir aqui!

Obrigada! Obrigada por estarem sempre aí tão pertinho de mim!

15/05/2018

A mãe gosta de ser mãe?

- Mas que pergunta!!! Claro que sim!!!
- É que nós damos muito trabalho! A mãe tem de lavar a nossa roupa, fazer o jantar, fazer as camas, tomar conta de nós...

É bom ele sentir isto! Nós, mães, estamos sempre a queixar-nos por não sermos valorizadas. Não vejo mal algum em ver o meu filho preocupado com o trabalho todo que tenho em casa. Até fico orgulhosa. Acho que eu só cheguei a esta conclusão, sobre a minha mãe, depois de ter tido filhos.


- Sim querido! Mas nem me apercebo que isso seja uma obrigação! A mãe nunca seria capaz de viver sem vocês, sem os vossos abraços, sem o vosso cheiro, sem a vossa voz, sem as vossas perguntas, sem as vossas caras... Até quando a mãe ralha com vocês, a mãe adora ser mãe! Até quando a mãe está cansada! Até quando tem de fazer o jantar e lavar a vossa roupa! A mãe adora ser mãe quando tem orgulho em vocês e quando está preocupada. Quando vos vê felizes e quando vos vê tristes. Quando vocês ganham e quando vocês perdem. Quando vocês estão alegres e quando estão zangados. Ser mãe é a melhor coisa que podia ter acontecido! E ser vossa mãe é a melhor sorte que me podia calhar.

Até quando estou doida para os por na cama para poder ter 5 minutos de paz eu adoro ser mãe! 

05/05/2018

Mais um filme com a minha viatura!

Digam lá que não estavam com saudades!
Desta vez trago-vos uma aventura digna de telenovela. Mete suspense, comédia e horror. Tudo a que a minha vida (e o vosso deleite) merecem.


5ª feira

8:10
Tenho os miúdos dentro do carro e preparados para irmos às nossas vidinhas. (Kikimobil já tinha ameaçado de véspera não pegar mas, tudo tinha acabado por correr bem.)
Carro não pega. Não responde. Nada! Surdo e mudo! Quieto e calado... Não temos muito tempo para pensar no que fazer. Temos horários a cumprir (que já estavam completamente esmagados). Vamos de Táxi! Deixei as crianças na escola. Fui para a minha escola. Logo pensava como ia resolver este ananás.

18:00
Consigo boleia com uma colega. Ela apanha os meus filhos e seguimos para casa. Rezo a todos os anjos e Santos para que o meu carro pegue à chegada. Nada!
Enfio as crianças em casa, chamo um reboque e aviso o mecânico que o carro vai chegar.
O homem do reboque chega.


Russo, careca e gigante, começa por insultar o meu mecânico e acaba afirmando que as mulheres só não têm o que não querem. (Como se o problema do carro não me fosse já suficiente, ainda tenho de aguentar isto...) Enfim... Põe-me o carro a trabalhar e manda-me ir à oficina trocar a bateria. Agarro nos miúdos, vamos direitos ao shopping, enfio o carro naquelas oficinas de shopping e peço para me trocarem a bateria.

21:00
O carro ainda não está pronto. Tenho duas crianças com banho por tomar, compras de supermercado no braço e ainda não me sentei o dia inteiro sem ser para guiar ou comer.
Temos novo diagnóstico!
- A bateria está óptima! O problema é elétrico. Tem de ir embora porque aqui não arranjamos nada disso.
- Então e se o carro não pegar amanhã?
- Reze!




6ª feira

8:00
Miúdos, mochilas... Cabrão do carro mudo e quieto outra vez.
Chama outro Taxi....

16:30
Consigo pedir uns cabos de bateria emprestados. Chamo um Uber. Vou a viagem toda a ganhar coragem para pedir ajuda ao motorista do Uber! Eu só precisava de ligar a bateria do meu carro para poder levá-lo à oficina e resolver isto de vez. O senhor muito simpático. Oferece-me rebuçados, dá-me água, fala do trânsito e do tempo. Lá ganho coragem e peço ajuda. Ele, muito simpático oferece-se imediatamente para ajudar!



17:00
Pára o carro dele ao lado do meu! Eu saio para abrir o capot. Estou a 5 segundos de pôr o meu carro a trabalhar e ir ao encontro da solução para o seu problema. Assim que pomos os cabos da bateria nos sítios certos.... O meu carro fecha-se! O MEU CARRO FECHA-SE! Tenho tudo lá dentro! A chave do carro, a chave de casa, o telemóvel, a carteira, OS CIGARROS, tudo... TUDO!



Tenho vontade de chorar! Encosto a testa ao vidro do meu carro e só penso... Não... Não... Isto não está a acontecer... O motorista do Uber olha para mim cheio de pena. Acho que ele também está quase a chorar!


- Uma pedra! Temos de arranjar uma pedra! Vamos partir o vidro!
- Tenha calma menina! Vamos pensar antes. Não resolva as coisas assim! Tome o meu telefone, ligue ao seu marido!
- Eu não tenho marido!
- Mas ligue para casa!
- Eu não tenho ninguém em casa...
- Mas não tem ninguém a quem ligar?
- Não! Eu não sei o telefone de ninguém! Não tenho chave suplente do carro. EU NÃO TENHO NADA!!!



E eu queria chorar! Oh se queria! Estava quase a roubar um abraço ao motorista do Uber... E um cigarro! Também queria muito um cigarro!

De repente, fez-se-me luz! O defunto! O defunto vai buscar os filhos e é o único número para além dos meus pais que eu sei de cor!



Muito bem, defunto a caminho. Mas é 6ª feira, há um Estoril Open a acontecer e é preciso enfrentar uma auto-estrada para vir buscar os filhos e, finalmente, chegar até mim.

Agradeço imenso ao motorista da Uber e mando-o à vida dele. Ele quer ficar comigo até chegar alguém, mas eu explico que não vale a pena.

Segue-se uma hora e trinta minutos de marasmo total! Tenho uns cabos de bateria numa mão, uma garrafa de água na outra. Uma hora e trinta minutos sem poder ir a lado nenhum! Não tinha dinheiro sequer para um café. Não tinha telemóvel. Não tinha CIGARROS. Nada... Não tinha nada...

Olhei para o céu. Contei nuvens. Segui formigas. Contei pedras da calçada. Pisei ervas. Volta e meia soltava uma gargalhada. Mas continha-me para não acharem que eu estava louca. Embora eu ache que estava mesmo!


18:30
Defunto chega com as crianças. Sinto um alívio enorme. Alguém com quem falar! Alguém conhecido! Alguém que me ature! Cabrão! Não tinha cigarros!
Claro que levei com o chá todo do "Só tu! e os vidros e o seguro e a bateria e o mecânico. Tu isto e tu aquilo" bla bla bla! Ah... Tão bom! É tudo o que precisamos ouvir num momento destes! Que somos uns vermes descontrolados, desorganizados e inconscientes! Isso! Que seria de nós sem defuntos na vida... Então defunto encarna o Holly spirit do MacGyver! Apanha paus e ferros e fios!



- Empresta-me o teu telefone para ligar aos bombeiros!
- Não! Tenho tudo controlado! É só por este pau aqui e passar o fio ali e depois puxar. Vai resultar.

18:40
- Vá lá... Deixa-me ligar aos bombeiros!
- Não! Já estou quase! Vou só por o pau mais para ali...



18:45
Defunto bate freneticamente com um paralelo da rua no vidro do carro. Nada.... Já tenho a vizinhança toda à janela. Um carro com dois paus espetados na porta e um defunto a atirar-lhe com pedras ao vidro.

18:50
- Sim? É dos Bombeiros? Obrigada! Até já!

Finalmente vinham os Bombeiros! Já não aguentava mais estar em pé. Já não aguentava mais explicar às pessoas o que se estava a passar. Começava a ficar com frio. Precisava urgentemente de um cigarro. E estava a ficar louca de fome. E o xixi?? Precisava tanto de fazer um xixi!!! Vicente divertia-se a procurar um lugar secreto para eu poder fazer um xixi sem ninguém ver. Mas... De repente...



19:10
Ao fundo da rua avistam-se os Bombeiros. Eu esperava uma carrinha pequena. Só um martelinho bastava para partir o vidro. Não... Vem um camião dos grandes. Seguido de uma carrinha do INEM.
Não quero acreditar na comitiva que chega. Vou a correr ter com os homens da ambulância avisar que é só um carro trancado. Tenho pânico que alguém precise do INEM e ele esteja ali.
- Tem de ser menina. Para o caso de alguém ficar ferido na abertura do carro.
- Oh meu Deus...


Os vizinhos já estão todos à janela! Já há telefones apontados a nós... Ainda falta o carro da PSP.
Os Bombeiros não podem arrombar o carro sem a presença da PSP.
Só que os rádios deles dão sinal de alarme!
Há um incêndio.
Onde?
À porta de casa do Marcelo.

Morar em Cascais dá nisto. Os Bombeiros ou estão em casa da Kiki ou em casa do Presidente da República.



- Menina! Vamos só ali apagar um incêndio e já voltamos!

Lá vão os Bombeiros e o INEM com as sirenes ligadas apagar o incêndio à porta de casa do Marcelo!
Mais uma hora à espera.... Os poucos vizinhos que ainda não estavam à janela, chegaram neste momento.

19:20
Chega a PSP.
- Os Bombeiros já cá estiveram, mas foram só ali apagar um fogo à porta do Presidente e já cá voltam!
- Vamos lá!

Quando eu digo que vivo numa aldeia e ninguém acredita! É isto...
Quem está a adorar tudo isto são eles! A Gigi e o Vicente!

Já temos um vizinho que acabou de se tornar o nosso melhor amigo. Já teve um carro igual ao meu e com o mesmo problema. Dá imensas ideias à MacGyver para resolver o problema. De repente acho que só eu é que me lembro que estamos à espera que os Bombeiros voltem.  Mas o senhor é uma simpatia e mantém o defunto entretido.

20:10
Os Bombeiros voltam. Mas agora não temos a PSP outra vez. Vejo um dos bombeiros a fumar.
- Posso pedir-lhe um cigarro? Desculpe.....
Ele ri-se!
- Deixe-me adivinhar... Os seus estão dentro do carro!
- Já viu que eu estou à porta deste carro há 3 horas e nem um cigarro?

20:15
Finalmente volta a PSP. Incêndio ao lado do Tio Marcelo resolvido! Agora falta abrir o meu carro. Estão 10 homens à volta do meu carro! De repente... A porta abre-se! Finalmente!!! Os bombeiros aproveitam a abertura da porta que o MacGyver fez com os paus para abrir o fecho com um ferro. Afinal não foi preciso partir o vidro.


A merda do carro continua sem ligar. Mas... Já ninguém aguenta mais nada hoje!
Sábado é outro dia!