03/04/2018

E se esbarrasses contigo num café?

Sonhei que me tinha encontrado comigo própria. A outra, a que eu encontrei, tinha 20 e poucos anos.
Fiquei ali especada a olhar para ela. Cabeleira sem cabelos brancos, queimado do sol e com aquelas ondas perfeitas da praia e da despreocupação. Cara mais rechonchuda mas sem uma única ruga. E os olhos? Os olhos não viam a cor das olheiras, vinham carregados de brilho e de sonhos. De esperança e de planos. Aquele coração? Ai aquele coração! Tão crente! Tão ingénuo. Tão inocente.

E então sentei-me com ela. Comigo! Passei os primeiros momentos a abraçar-me, a observar-me. Não sei se procurava consolo naquilo que eu ainda não era, se queria apenas dizer-lhe que ia correr tudo bem. Não como planeado, mas bem. Fiquei a ver-lhe as diferenças. Na verdade, tirando as olheiras, acho que não mudava mais nada daquilo que me tornei.

Fiquei ali a pensar o que lhe dizer. Ela olhava para mim com aquele sorriso cheio de expectativa. Queria saber como era. Como era hoje? Queria saber o que vinha. Queria saber se tudo ia correr como planeado. Eu eu sentia-lhe as questões no olhar, a curiosidade que ainda não perdi mas, tinha medo de lhe dizer a verdade.

Tinha medo de lhe explicar que, grande parte dos sonhos não se iriam realizar. Tinha medo de explicar-lhe que, a maior parte dos planos não iam sair exactamente como estava planeado. Nem tão imediatamente. Tinha medo de dizer-lhe que ia ter de ser forte. Que muita coisa estava por vir e que a maior parte delas, ela nem imaginava que iam acontecer.

Quis dizer-lhe o quanto se ia orgulhar dos filhos e quão bonitos iam ser, mas não quis estragar o deslumbre dos seus olhos quando tivesse a oportunidade de olhar para eles.

Quis dizer-lhe que os contos de fadas não eram exactamente como nos tinham contado em criança, mas não quis estragar-lhe a vontade de os procurar. Naquele coração tão cheio de ideias. Ideias malucas. Mas ideias.

Quis dizer-lhe que as pessoas não iam sempre corresponder às suas expectativas, mas não quis estragar-lhe os momentos de fraqueza que a iam ensinar a construir a força para os ultrapassar.

Quis dizer-lhe que ia chegar bem mais longe do que poderia imaginar, mas não quis estragar-lhe a surpresa da descoberta.

Quis dizer-lhe que ia passar por muitos maus bocados, muitos. Que ia ter muitas desilusões, muitas. Que ia ter vários desgostos. Oh meu Deus... Tantos... Mas não poderia nunca estragar-lhe a inocência da fé na vida e nas pessoas.

Quis dizer-lhe que todos esses desgostos iam ser águas passadas, iam transformar-se em rugas e mapas de histórias cravados na sua pele então brilhante, mas não quis deixar-lhe a ânsia de ver esses dias chegar, correndo o risco de não absorver todas as aprendizagens que deveria fazer, para então desfrutar de todos esses alívios.

Quis explicar-lhe que as coisas eram bem mais complicadas do que ela imaginava. Mas não quis deitar a perder a oportunidade de crescer com os obstáculos e de aprender com as situações.

Quis dizer-lhe que ia ter de ser forte e corajosa e que nunca poderia perder a força de querer as coisas, mesmo que um dia percebesse que nada iria ser como planeou, e que nunca poderia desistir. Que tudo iria acabar bem.

Mas eu conheço-me! Não ia ouvir nenhum daqueles conselhos. Não ia acreditar em nenhuma daquelas ideias esquisitas de não realizar sonhos, de não poder acreditar em todas as pessoas, de não vir a ter o meu próprio conto de fadas.

Por isso, não lhe disse nada! Sorri-lhe apenas! Pisquei-lhe o olho onde tentei atirar-lhe o mesmo brilho que ela tinha aos 20 e poucos anos e dei-lhe um abraço enorme. Preferi que ela acreditasse nos sonhos e que voltasse a passar por tudo o que teve de passar até aqui.

Porque a verdade é que, mesmo com tantos desgostos e desilusões, com tantos planos B postos em cima da mesa, a verdade é que cheguei até aqui. E a verdade também é que, ninguém me garante que o meu plano B não seria, à partida, o plano principal. Só que eu não sabia!

Se eu me voltasse a cruzar com ela (comigo) dizia-lhe só: Faz-te à vida miúda! Ainda te vais surpreender!