19/11/2017

Odeio a mãe em que me torno!

A cada lágrima que cai da tua cara, é um bocado do coração que me é arrancado. 
A cada suspiro teu desesperado, é uma volta apertada no meu estômago. 
A cada sacudidela desmotivada da tua cabeça, é uma espada cravada no meu peito. 
Odeio os trabalhos de casa! Mais do que tu, te garanto. Porque ver-te em sofrimento com eles, doí-me bem mais do que a tua frustração ao fazê-los. 
E aguento-me para não te dizer que tens toda a razão! Que os trabalhos de casa não deveriam existir. Aguento-me para não te dizer que devias era estar estendido no chão a montar as tuas cidades de Playmobil ou esticado no sofá a ver bonecos. Aguento-me para não te dizer que tens toda a razão! Aguento-me para não te arrancar os livros das mãos, sacudir as lágrimas que lá caíram e atirá-los pela janela. Num gesto libertador! Para ti e para mim. 
Odeio ver o teu sofrimento! Odeio ter que ralhar contigo. Odeio ter de te explicar que tens mesmo de os fazer mesmo que não gostes. Odeio ter de te comprar com meia hora de iPad se acabares num instante. Odeio ter de te explicar que o tempo que estás gastar, a refilar para fazeres uma coisa que odeias, é tempo perdido que já poderia ter sido investido nos trabalhos. Odeio! Odeio a mãe em que me torno nestes momentos. Porque odeio mentir-te! E porque odeio ver-te assim. Angustiado e frustrado a fazeres coisas que odeias. 
E mesmo sabendo [e explicando] que, infelizmente, na vida, temos de fazer muitas coisas que não nos dão prazer, e que esta é a primeira, é para aprenderes, é para te habituares, apetecia-me era dizer-te que as horas livres deveriam ser simplesmente isso! Livres. Para fazeres o que realmente te apetece e dá prazer. Que nem os adultos trabalham tanto como as pessoas do teu tamanho! Que nem os adultos têm de pegar no trabalho ao fim do dia. Nem ao fim-de-semana! 

Odeio os trabalhos de casa. E odeio cada lágrima tua vertida em cima das palavras escritas a lápis de carvão. E odeio cada suspiro teu tão carregado de desespero e frustração. Odeio ainda mais não conseguir dar a volta a isto. E não conseguir fazer-te mudar. 

6 comentários:

Ana disse...

Retrato-me em cada palavra....e já vão quase 4 anos deste tormento ! A vontade que muitas vezes tenho é dizer-lhe que não os faça...como professora, aprendi uma "lição"... a muito raramente enviar os t.p.c.! gostava que a professora da minha filha se lembrasse que eles já trabalham tanto nas aulas que de vez em quando podia deixá-los ser livres para fazer tudo, menos t.p.c...:)

Anónimo disse...

Tu, como educadora, devias saber bem que não é só dentro do horário de trabalho que se trabalha!

Monica Lourenço disse...

Same here... :(
Beijinho e força.
Mónica

Anónimo disse...

Como me revejo neste texto....
E digo-lhe mais... detesto a pessoa que me torno nos tempos passados juntos à volta dos TPC's....
Detesto os berros que dou porque não me consigo controlar....e espero que ele o faça.....
Gosto muito de ler o que escreve, porque é tão real.... Não é um daqueles blog's telenovelas (como lhe chamo), que só falam dos almoços, jantares, ofertas, marcas de roupas e viagens....
Mas, do fundo do coração, só por ser tão autêntica, acho que merecia ser recompensada e ter a oportunidade de falar também dos almoços, jantares, ofertas, marcas de roupas e viagens....sob o ponto de vista de uma pessoa com uma vida normal....
bjos
CS

Monica Loureiro disse...

Também passei por isso. Mas felizmente essa fase passou. Agora já tenho um adolescente super responsável e a sou eu que o mando parar de estudar porque acho qus ele abusa...

Unknown disse...

Leio cada palavra e não consigo evitar uma lágrima...uma lágrima de conforto por não me sentir só... não escreveria melhor sobre estes momentos. Obrigada. Não pare de partilhar connosco seus pensamentos, suas ideias....e de nos fazer sentir acompanhadas nestas emoções tão contraditórias. Beijinho grande