27/01/2017

Pára! Escuta! Olha!

Todas as 6ªs feiras levo os meus 25 pequenos-seres-humanos a lanchar com um grupo de enormes-seres-humanos. 

Achei que o convívio daquelas pequenas criaturas em desenvolvimento com as outras grandes criaturas na recta final de um longo caminho ia ser saudável. Educativo. Rico em aprendizagem e partilha. 

Achei que crianças que já não têm avós velhinhas de bengala deviam conviver com avós velhinhos de bengala que vivem longe dos netos. 

Só que andei frustrada durante umas semanas. Porque naquelas mesas, entre chávenas de leite e pão com manteiga a riqueza estava apenas na luz que entrava pela  janela. Via avós cansados com olhar vazio e crianças enérgicas que não se identificavam com aquelas almas cheias de experiência mas com pouca energia. 

Via as crianças conversarem entre si, com os disparates próprios da idade e avós que sorriam por cortesia e ralhavam comigo quando ralhava com eles. 

- Deixe estar menina! São crianças. Não se arrelie. 

Mas arreliei-me! Não com as crianças. Mas comigo mesma. Mas como pude eu pensar que sentar crianças de 5 anos a lanchar com idosos ia ser uma experiência enriquecedora? Fui demasiado romântica! Foi como pegar  nos frascos de tinta, pousá-los ao pé de um quadro e ficar à espera que, por magia, a obra de arte nascesse. 

Resolvi sentar-me e reflectir. Eu nunca lhes tinha explicado o que era uma pessoa idosa. Eu nunca sequer lhes expliquei para que serve uma pessoa idosa. Achei do alto da minha presunção que bastava sentar uma criança à frente de um idoso e que algo de bonito aconteceria. 

E então pensei! E pensei e expliquei. Expliquei que um idoso é uma pessoa maravilhosa cheia de histórias para contar. Expliquei que um idoso já foi criança como eles. Expliquei que ser criança na altura daquele idoso, não era como ser criança como eles. Expliquei que um idoso já sorriu, já chorou, já dançou, já trabalhou, já festejou, já sofreu. Trabalhou a vida inteira, teve filhos e netos. Lutou pela sua família e pelos seus ideais. Provavelmente já foi à guerra ou até lavou roupa num tanque. Criou filhos seus e, quem sabe, de outras pessoas. Expliquei que alguns ouviam mal porque já tinham ouvido tantas coisas pela vida fora. Expliquei que alguns viam mal por já terem visto tantas coisas pela vida fora. Expliquei também que alguns até já andavam mal por estarem cansados ou por terem trabalhado tanto. 

Pedi-lhes que olhassem para eles com o coração! Que lhes fizessem perguntas. Que os escutassem. Que lhes dessem o respeito de quem já viveu mais do que eles alguma vez viverão nos próximos 30 anos. 

De repente os olhos deles começaram a brilhar. De repente perceberam o tesouro que tinham à sua espera, na mesa, para partilharem uma caneca de leite e um pão com manteiga. [E tinham tão mais que isto para partilhar!]

Entraram entusiasmados. Saltitaram até às mesas. Nos seus olhos via-se a curiosidade que sentiam no coração. 
Pela primeira vez vi aquela sala cheia de sorrisos. Vi idosos a falar como nunca. Vi conversas longas. De perguntas e de respostas. De histórias do antigamente e de pequenas cabeças a magicar como teria sido ir para a escola a pé, sem os pais e ir a seguir trabalhar no campo. Falava-se de aldeias, de molhar o pão na sardinha, de brincar com 9 irmãos e de jogar à bola com vizinhos. Dos nomes dos irmãos, dos filhos e dos netos. 

Vi corações velhinhos e corações pequeninos a baterem ao mesmo ritmo. E eu fiquei ali... A olhar e a sorrir. E a pensar que a magia não acontece porque a imaginamos. É preciso parar, escutar e olhar! Muitas vezes olhar com o coração. E empurrar a magia para o ar! 

(O meu voltou cheio para casa!) 

5 comentários:

Cristina Martins disse...

Simbiose perfeita!Foi,concerteza, O lanche que aqueceu os corações.Bem-haja 🌹

Anónimo disse...

Lindo...

Gisela Pina disse...

Que lindo! Fiquei emocionada. É com pequenos gestos como este que se transforma a próxima geração de adultos e, por consequência, se faz alguma mudança no mundo. Parabéns pela iniciativa.

sandra figueiras disse...

Olá
São pequenas magias como esta que enriquecem o coração tanto dos mais pequeninos como o coração dos mais "velhinhos" que devem de ter chegado aos seus lares com o coração a transbordar de energia e alegria por se sentirem uteis de novo, vivos. São pequenos gestos como este que podem mudar todo um mundo há nossa volta.
Fiquei com lágrimas de emoção de ler todo o testemunho... e apesar dos meus 35 anos ainda vivi o "tempo antigo" de uma forma muito intensa (felizmente) e adorava adormecer com as lindas histórias da minha avó... que saudades dela e de toda a sua energia.
Um beijinho e continue assim... sempre

Anónimo disse...

Gostavas que fosses educadora do meu filho...